Música “Conta Kilometro”

Música “Conta Kilometro”

Parece-me que “malóndre” (preguiçoso) seria um título mais sugestivo para esta sátira.

Esta é uma das minhas coladeiras preferidas deste CD do meu pai. Rio-me às bandeiras despregadas sempre que a oiço. Ao contrário da morna “Bô era tudo na nha vida”, cujo conteúdo me surpreendeu, posso dizer que estaria à espera que o meu pai escrevesse algo deste género, mesmo à Toy Djack, seguindo o estilo cómico-corrosivo que ele costumava usar nalgumas das suas críticas.

Nesta música, o meu pai critica um tipo de homem, ainda jovem, que ele apelida de “safado”, “preguiçoso” ou “parasita”. Lembro-me do meu pai a falar sobre esse tema comigo e com os meus irmãos (e irmãs). Ele tinha muito receio de que os filhos se tornassem preguiçosos. Ele costumava dizer-nos: “o meu único vício é trabalhar”. Puxava muito por nós, para estudarmos, tirarmos boas notas, mas também não nos dispensava das tarefas em casa e na mercearia. Nós todos gostávamos de brincar com a frase acerca do vício do trabalho. Certo dia, num dos nossos serões, ele, a minha mãe, eu e os meus irmãos (e irmãs) estávamos a conversar, e eu, na esperança de que a famosa frase do papá também me ficasse bem e não causasse estranheza, disse-lhes, de forma séria, que o meu único vício era trabalhar. O meu irmão Laurindo, em jeito de troça, respondeu-me: “Ó Amílcar, o único vício que NÃO tens é trabalhar”.

Esta música começa com uma expressão que o meu pai utilizava com muita frequência: “Quem quiser arranjar problemas, peça a um preguiçoso para trabalhar”. Não deixa de ser uma saída cómica, mas penso que o meu pai estava, aliás, acho que continua convencido disso.

Segundo Toy Djack, outra característica desse tipo de homem é a tendência para se meter com “moças direitas”. E interroga-se como é que o preguiçoso arranja dinheiro e como é que consegue namorar moças direitas? Parece-me que as respostas servem para as duas questões. O “malóndre” faz recurso à sua desfaçatez e dissimulação, “salta paredes”, veste-se bem, foge, “acelera a fundo”, mas com cuidado para não fazer gripar o motor (para não ser apanhado).

Por fim, o meu pai faz um apelo ao preguiçoso, para que procure trabalho, para que não viva à custa dos outros, para que tenha dignidade e orgulho de si próprio… Trata-se de um final bastante optimista, que acaba por reflectir o modo como o meu pai encara a vida.

De qualquer forma, subentende-se que há alguma esperança para esse tipo de homens, o que revela que o Toy Djack é um optimista, ou não teria lançado um CD aos 80 anos.

Amílcar Silva dos Santos
Lisboa, 11 de Junho de 2012.

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